Relato autobiográfico – 7º ano

monteiro lobatoTexto autobiográfico de Monteiro Lobato
Nasci José Renato Monteiro Lobato, em Taubaté-SP, aos 18 de abril de 1882. Falei tarde e aos 5 anos de idade ouvi, pela primeira vez, um célebre ditado… Concordei. Aos 9 anos resolvi mudar meu nome para José Bento Monteiro Lobato desejando usar uma bengala de meu pai, gravada com as iniciais J.B.M.L.
Fui Juca, com as minhas irmãs Judite e Esther, fazendo bichos de chuchu com palitos nas pernas. Por isso, cada um de meus personagens; Pedrinho, Narizinho, Emília e Visconde representa um pouco do que fui e um pouco do que não pude ser.
Aos 14 anos escrevi, para o jornal “O Guarani”, minha primeira crônica.
Sempre amei a leitura. Li Carlos Magno e os 12 pares de França, o Robinson Crusoé e todo o Júlio Verne. Formei-me em Direito em 1904, pela Universidade de São Paulo. Queria ter cursado Belas Artes ou até Engenharia, mas meu avô, Visconde de Tremembé, amigo de Dom Pedro II, queria ter na família um bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais.
Em maio de 1907 fui nomeado promotor em Areias – SP, casando-me no ano seguinte com Maria Pureza da Natividade, com quem tive o Edgar, o Guilherme, a Marta e a Rute.
Vivi no interior, nas pequenas cidades, sempre escrevendo para jornais e revistas.
Em 1911 morreu o meu avô, Visconde de Tremembé, e dele herdei a fazenda Buquira, passando de promotor a fazendeiro. Na fazenda escrevi o Jeca Tatu, símbolo nacional.
Comprei a “Revista do Brasil” e comecei, então, a editar meus livros para adultos. “Urupês” iniciou a fila em 1918. Surgia a primeira editora nacional “Monteiro Lobato & Cia”, neste mesmo ano. Antes de mim, os livros do Brasil eram impressos em Portugal.
Quiseram me levar para a Academia Brasileira de Letras. Recusei. Não quis transigir com a praxe de lá – implorar votos.
Tive muitos convites para cargos oficiais de grande importância. Recusei a todos. Getúlio Vargas (presidente do Brasil na ocasião) convocou-me para ser o Ministro da Propaganda. Respondi que a melhor propaganda para o Brasil, no exterior, era a “Liberdade do Povo”, a constitucionalização do país.
Minha fama de propagandista decorria da minha absoluta convicção pessoal. O caso do petróleo, por exemplo, e do ferro. Éramos ricos em energia hidráulica e minérios e não somente café e açúcar. Durante 10 anos, gritei essas verdades. Fui sabotado e incompreendido.
Dediquei-me à Literatura Infantil já em 1921. E, retomei a ela, anos depois, desgostoso dos adultos. Com “Narizinho Arrebitado”, lancei o “Sítio do Picapau Amarelo”. O sítio é um reino de liberdade e encantamento. Muitos já o classificaram de República.
Eu mesmo, por intermédio de um personagem, o Rei Carol, da Romênia, no livro A Reforma da Natureza, disse ser o Sítio uma República. Não; República não é, e sim um reino. Um reino cuja rainha é a D. Benta. Uma rainha democrática, que reina pouco. Uma rainha que permite liberdade absoluta aos seus súditos. Súditos que também governam. Um deles, Emília, é voluntariosa, teimosa, renitente e não renuncia os seus desejos e projetos. Narizinho e Pedrinho são as crianças de ontem, de hoje e amanhã, abertas a tudo, querendo ser felizes, confrontando suas experiências com o que os mais velhos dizem, mas sempre acreditando no futuro.
Mas eu precisava de instrumentos idôneos para que o trânsito do mundo real para o fantástico fosse possível, pois, como ir à Grécia? Como ir à Lua? Como alcançar os anéis de Saturno? Bem, a lógica das coisas impunha a existência desse instrumento. Primeiro surgiu o “O Pó de Pirlimpimpim” que transportaria para todo e sempre, os personagens de um lugar para outro, vencendo o “ESPAÇO”. O “FAZ-DE-CONTA”, pó número 2, venceria a barreira do “TEMPO”, suprindo as impossibilidades de acontecimentos. Finalmente pensei no “SUPER-PÓ”, inventado pelo Visconde de Sabugosa, em o Minotauro, que transportaria, num átimo, para qualquer lugar indeterminado, desde que desejado.
Como disse a Emília: “é um absurdo terminar a vida assim, analfabeto!”. Eu poderia ter escrito muito mais, perdi muito tempo escrevendo para gente grande. Precisava ter aprendido mais…
Hoje aos 4 de julho de 1948, vítima de um colapso, na cidade de São Paulo parto para outra dimensão.
Mas o que tinha de essencial, meu espírito jovem, minha coragem, está vivo no coração de cada criança. Viverá para sempre, enquanto estiver presente a palavra inconfundível de “Emília”.

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